3 decisões que fizeram a Vaseline aceitar virar Baseline 

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Uma criadora coreana falou “Baseline” no lugar de “Vaseline” e a marca decidiu adotar o erro. Veja o que a empresa já tinha pronto antes da onda chegar.

Uma criadora de conteúdo coreana gravou um vídeo mostrando os produtos que usa na pele. Nada fora do comum, a não ser por um detalhe: ela falava “Baseline” no lugar de “Vaseline”.  

O vídeo passou de 36 milhões de visualizações e a marca, em vez de corrigir, mudou o próprio nome nas redes sociais. É o tipo de marketing viral que todo diretor pede na reunião de planejamento e que ninguém consegue encomendar. 

Acompanhei o caso pela curiosidade e fiquei com a história na cabeça por outro motivo. A parte interessante não é a piada. É o que a Vaseline tinha pronto antes de a piada acontecer. 

O vídeo que ninguém planejou 

Min Day Lee mostrava a coleção de produtos que tinha em casa, empolgada, repetindo o nome da marca do jeito que se fala no idioma dela. O coreano não tem o som de “v”, então falantes nativos costumam trocar por “b”. Foi só isso. 

A internet fez o resto, e nenhum caso de marketing viral começa muito diferente disso. Gente comentando, imitando, pedindo que a marca adotasse o novo nome. Quando a própria criadora explicou a origem da pronúncia, a brincadeira não esfriou. Pelo contrário, ganhou mais um capítulo. 

A resposta que veio antes da reunião 

A Vaseline publicou um comunicado falso anunciando a troca de nome para Baseline, com efeito imediato. No texto, dizia que a decisão saiu depois de uma “análise extensa”, ou seja, assistir a um vídeo viral várias vezes. Também avisava que o produto continuava igual: mesmo pote, mesma vaselina, só a primeira letra diferente. 

Perfis regionais entraram junto. Reino Unido e Bangladesh trocaram foto e publicaram embalagens fictícias da Baseline. A criadora virou “CEO da Baseline”, cargo conquistado sem entrevista. 

Aqui está o ponto que eu levaria para qualquer diretoria: nenhum comitê aprova uma mudança de nome global em poucos dias. Se saiu rápido, é porque alguém já tinha autonomia definida para decidir esse tipo de coisa sozinho. Não foi criatividade que destravou a ação. Foi alçada. Vale anotar isso antes da próxima reunião sobre marketing viral na sua empresa. 

Quando a marca entrega o microfone 

O que veio depois me parece mais inteligente que o comunicado. Em vez de segurar a piada, a Vaseline criou a hashtag VaselineHijacked, convidou as pessoas a fazerem suas próprias versões e passou a dar o título de “Hijack Icon” para quem se destacasse. 

Repare no mecanismo. O público já estava produzindo aquilo de graça. A marca só deu formato, nome e reconhecimento. Assim ela saiu do papel de dona da piada e virou anfitriã. Conteúdo de usuário não nasce de pedido, nasce de permissão somada a um motivo para participar. 

E tem um detalhe de custo que costuma passar batido. A operação toda se resumiu a trocar nome de perfil, foto e criar arte de embalagem falsa. O volume veio do público. Marketing viral funciona assim quando funciona: a marca entra com o gatilho, não com a mídia. 

Por que a piada não arranhou a marca 

Existe um medo legítimo de perder autoridade ao entrar na brincadeira. O caso mostra o contrário, desde que o limite esteja claro desde o começo. 

A Vaseline brincou com o nome e nunca com o produto. Inclusive, ela aproveitou o episódio para lembrar que a marca tem cerca de 150 anos e que o nome vem sendo pronunciado e adaptado de formas diferentes pelo mundo desde então. A piada virou prova de alcance global. Ou seja, dá para rir sem se diminuir quando a graça está no acessório e não no que a empresa entrega. 

O contraponto que quase ninguém escreve 

Agora a parte que não aparece nos posts de LinkedIn sobre o caso. A Vaseline é marca de consumo, com público gigante, produto simples e nenhum risco técnico envolvido. Uma indústria que vende equipamento crítico, um laboratório ou uma empresa de segurança não tem essa folga. 

Isso não significa ficar de fora, significa escolher onde a leveza cabe. Uma fabricante pode brincar com o apelido que os clientes dão para uma peça, com o jeito que o mercado pronuncia um termo técnico ou com um hábito conhecido do setor. Porém, quem assina contrato de seis dígitos precisa justificar a escolha internamente. Por isso a leveza rende mais no conteúdo que aproxima do que na página que sustenta a decisão de compra.

 

foto da baseline (vaseline)

O que sobra do caso quando a onda passa 

Daqui a alguns meses ninguém vai lembrar da Baseline, e tudo bem. O que fica são as três coisas que a Vaseline já tinha prontas antes de a onda chegar: 

  1. Monitoramento. Alguém na marca viu o vídeo enquanto ele ainda estava crescendo, e não uma semana depois pelo relatório mensal. 
  1. Alçada de decisão. Existia gente autorizada a aprovar uma brincadeira com o nome da marca sem passar por comitê. 
  1. Limite definido. A piada podia mexer no nome, jamais no produto, e isso estava claro antes de a primeira peça ir ao ar. 

Nenhuma dessas três depende de verba nem de sorte, e todas dão para construir com antecedência. A ideia em si é a parte fácil, e ela sempre chega por último. 

Se a sua empresa nunca sabe o que estão falando dela por aí, ou se toda ideia leva duas semanas para ir ao ar, me chama para trocar um papo. Costumo dizer que monitoramento e alçada de decisão valem mais que briefing criativo nessas horas. 

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